Em semana de Halloween (ou “Dia das Bruxas”, no equivalente em português) paira uma pergunta no ar: afinal de contas, o que é e de onde veio a figura da Bruxa que temos hoje no nosso imaginário?

Antes de mais nada, vamos até a origem da palavra Bruxa. Palavra antiga e provavelmente de origem pré-romana, geralmente atribuída aos povos proto-celtas através do vocábulo brixta (feitiço) e brixtu¹ (magia) ou do Gaulês Brixtom e Brixtia, de onde deriva o nome da Deusa Brixta, designa os poderes incompreensíveis e incorpóreos (a-físicos) do mundo dos espíritos. Lembrando que o equivalente anglo-saxônico seria Witch (do inglês arcaico, wiċċe, que por sua vez vem do proto-germânico wikjo²) que designa alguém que usa de meios não-físicos, ou seja, feitiçaria (witchcraft).

Podemos com certo cuidado expandir o conceito de Bruxa até o conceito de Feiticeira. Apesar de haverem diferenças notáveis entre elas, para nós, o público leigo, as semelhanças são mais importantes.

Segundo Jung³ a figura da Feiticeira encarna os desejos, os temores e as outras tendências da nossa psique que são incompatíveis (e são portanto recalcadas) com o nosso ego, seja por serem por demais infantis, seja por outras razões. Ele explica então que a Feiticeira é a figura feminina que lida com as parcelas sombrias da alma e do inconsciente, com as forças obscuras e com os espíritos⁴. Sendo assim ela é a antítese da imagem idealizada da mulher, ela é, literalmente, o lado negro da força no feminino.
Num outro sentido, a feiticeira foi considerada uma degradação voluntária, sob a influência da pregação cristã, das sacerdotizas, sibilas (da mitologia greco-romana) e das magas druídicas⁵, fato facilmente observável no negro período da Inquisição na Idade Média. Disfarçaram-nas, portanto, de modo medonho e diabólico por serem atribuídas à cultos pagãos não-cristãos. A verdade é que essas figuras anciãs e de sabedoria do feminino (por muitas vezes ligadas à aspectos lunares, sensíveis e misteriosos, em contra-partida ao mundo masculino e solar, lógico e consciente) sempre estiveram lá sendo respeitadas e fazendo parte de um imaginário completo e coerente nas civilizações onde eram figuras de referência. Somente depois da “satanização” dessas figuras que obtivemos o aspecto puramente maquiavélico e obscuro da bruxa.

De outra sorte, a Feiticeiria em sí é um dos maiores símbolos das energias criadoras instintituais não disciplinadas, não domesticadas e que podem desdobrar-se em oposição aos interesses do ego, da família e do clã⁵. Para quem jogou a série Dragon Age é fácil compreender essa simbolização: os magos de sangue representam exatamente essa parcela de energia incompreensível e que, caso tente ser controlada poderá tornar contra o seu operador. O Feitiço vira contra o Feiticeiro em diversos mitos que cercam a figura da Feitiçaria, em diversos jogos e livros, inclusive.

Agora que sobrevoamos a figura complexa da Bruxa ou Feiticeira, podemos expandir para temas mais atuais, como as suas figuras modernas. Hoje vemos bastante o retorno dos valores druídicos, onde a figura feminina é de central importância: há diversos rituais que só podem ser feitos por mulheres⁶, até mesmo somente por virgens⁷, por serem inacessíveis ao corpo e psiquê masculinos (Ibid.). Uma forma atual desse tipo de prática também pode ser observada na magia Wicca, que ao contrário do mito popular, pregam uma atitude espiritual aberta e generosa, profunda fé nas energias do cosmo e nos poderes da natureza concedidos pelo seu(sua) Criador (a)⁸. Porém, ainda assim, a figura mais difundida é a da Bruxa Má, corcunda e com a berruga no nariz em forma de gancho. Porque será?

O imaginário brasileiro é, em grande parte, fruto de uma mistura de culturas. Todavia no aspecto da Bruxaria é, sobretudo, regido pela influência católica fruto do nosso papel como colônia Portuguesa. Ainda assim nas religiões afro-descendentes já podemos ver uma figura diferente (não confundir com Iemanjá, que por sí é uma figura de Grande Mãe Oceânica, ou seja, muito maior do que o restrito conceito de Feiticeira).

Conclusão: A figura da bruxa nasce essêncialmente da figura sensitiva lunar feminina inatingível pelo racional solar masculino, sendo até mesmo considerado sua contra-partida complementar. Por essa razão diz-se na lenda que Morgana LeFay era até mais poderosa do que o próprio Merlin, por ter sofrido todas as cicatrizes que uma mulher pode sofrer. Essa figura sábia, liberta e de referência social da mulher se perde frente ao avanço cristão nas sociedades européias, ao ponto de ser corrompida e tornar-se o símbolo da vileza feminina. A partir dessa visão estreita chega para nós a Bruxa Malvada, a Feiticeira Corrompida e Egoísta. Essa é uma visão reducionista e parcial de uma realidade muito mais ampla, como podemos ver na sensível carta do Tarot: a “Alta Sacerdotisa”. Com o princípio passivo feminino aos seus pés (a Lua), a sabedoria em suas mãos e entre as colunas do Templo de Salomão, ela é a própria sabedoria à serviço da sensibilidade, compaixão, empatia e principalmente a misteriosa sensualidade da mulher.


Talvez seja uma boa oportunidade, nesse Dia das Bruxas, de compreender e entrar em contato com uma figura bela, livre, sábia e poderosa das jovens Sacerdotisas e Feiticeiras de antigamente. Que nada tinham de diabólicas ou egoístas, mas tinham algo que lhes é de direito desde o nascimento: o poder de serem mulheres e de exercerem sua feminilidade com plenitude.

Escrito por:

Yuri Dittrich Pereira da Silva (Baha)
Nerd, Gamer e Psicólogo (CRP: 16388-08)

Referências:
1 – An Etymological Lexicon of Proto-Celtic (disponível em inglês em http://pt.scribd.com/doc/61167870/An-Et … oto-Celtic) acessado em 31 de outubro de 2012.
2 – Wiktionary (Old English) (disponível em inglês em http://en.wiktionary.org/wiki/wicca#Old_English) acessado em 31 de outubro de 2012.
3 – Adler, G. (1974). Studies in Analytical Psychology. (pp. 18). Hodder & Stoughton: London.
4 – Jung, C. G. (2005). O Homem e seus Símbolos. (pp. 176). Nova Fronteira: Rio de Janeiro.
5 – Chevalier, J. & Gheerbrant, A. (2006). Dicionário de Símbolos. (pp.419-420). José Olympio: Rio de Janeiro.
6 – Butler, E. W. (1998). A Magia e o Mago. (pp. 101). Bertrand Brasil: Rio de Janeiro.
7 – Lévi, É. (2010). História da Magia. (pp. 172-175). Pensamento: São Paulo.
8 – Osuna, M. (2009). Magia Celta. (pp. 26). Universo dos Livros: São Paulo.