Acho que poucas pessoas deixaram de perceber o sucesso que tem sido a Série de TV da AMC – The Walking Dead. Na sua atual terceira temporada, contou com 10.87 milhões de telespectadores na premiere¹, sendo oficialmente a série de drama veiculada por TV a cabo mais assistida na história, além de já ter sido premiada com várias nominações em eventos sobre séries televisivas. Provavelmente muitos dos leitores já devem ter visto ao menos um episódio ou eventualmente lido a História em Quadrinhos.

Sim, ela é baseada em uma HQ! A série de Robert Kirkman, Tony Moore e Charlie Adlard foi lançada no Brasil inicialmente em 2007 pela própria Image Comics, mas deixou de ser importada. Já agora em 2012 a HQM decidiu trazê-la devolta e, inclusive, desde o primeiro volume. Se você gosta de histórias em quadrinhos, é uma ótima chance pra adquirir uma grande série!
Mas caso assista o seriado, cuidado para não se decepcionar: as duas mídias seguem histórias bem diferentes! Apesar de estrelar muitos dos personagens originais dos quadrinhos como Rick Grimes, a Lori, o Carl entre outros, o diretor Frank Darabont usou de bastante licença poética para praticamente re-escrever a trama. Os fãs se dividem entre a fidelidade à HQ e a inovação da série televisiva, mas sem dúvida alguma ambas as vertentes acharam fãs fiéis e têm sido aclamadas pela sua qualidade.

Nas duas entramos em contato com a história de Rick Grimes, um delegado de polícia em um condado de Kentucky, que é baleado ao exercer seu ofício e entra em coma em virtude das características do ferimento. Ao acordar desorientado, depois de alguns meses, depara-se com um hospital e uma cidade destruídos, repletos de mortos-vivos cambaleantes – desde então chamados de walkers, ou “caminhantes”, “andarilhos”. Decide então ir até a cidade de Atlanta onde estavam sua mulher e filho, Lori Grimes e Carl Grimes, respectivamente, para saber do seu paradeiro. A partir daí é uma de luta pela sobrevivência em um mundo onde a moral e a ética que hoje temos acesso dá lugar ao puro instinto. É matar ou morrer.

Sendo um policial, ao longo da sua caminhada ele se depara com várias questões morais que vão ao encontro ao seu caráter. Vê-se em situações difíceis, onde muitas vezes seguir seu restrito código de ética talvez signifique a morte daqueles que ele ama, ao mesmo tempo que percebe claramente que essas atitudes talvez despejem lentamente a terra sobre a cova da civilização humana como a conhecemos. Sobreviver como um animal ou arriscar-se a manter-se humano? Esse é somente um dos dilemas de um herói que vê a sua frente o abismo que pode muito bem ser o símbolo da sua maior queda.
Vários temas controversos e complexos são explorados a partir dos personagens e das suas histórias. O que é religião e qual sua função? Como fazer personalidades diferentes cooperar tendo que conviver em um ambiente hostil? Quais as prioridades frente à ameaça constante de morte e, como se não bastasse, conflitos e choques constantes entre as diferentes formas e perspectivas de amar, respeitar e dedicar-se ao outro.

O mais belo talvez seja, por fim, perceber como nós também vivemos diariamente com situações assim, tão complexas quanto. Talvez mais seguros, talvez com a nossa sobrevivência menos ameaçada… ou talvez seja isso somente fumaça e espelhos de uma sociedade já a beira do colapso?

De qualquer modo, The Walking Dead é talvez uma daquelas poucas séries televisivas que consegue apelar ao público pop utilizando-se de um dos maiores ícones do terror deste começo de século e, ao mesmo tempo, manter uma boa qualidade de trama: dramático e real o suficiente para colocar qualquer telespectador em cheque com os dilemas dos personagens refletidos em seu próprio cotidiano. Muito mais que um simples spin-off de terror fruto da atual hype do apocalipse zumbi, a série é um passaporte direto para o drama da sobrevivência a todo custo e da complexidade das nossas relações interpessoais.

Referência:

1 – TV by the Numbers – Sunday Cable Ratings (disponível em inglês no seguinte link: http://tvbythenumbers.zap2it.com/2012/1 … re/153061/)