Restaurante Madison’s. 8:30 da manhã

Depois de meia hora de trânsito, com pelo menos metade delas preenchida pelo clima estranho de silêncio, John finalmente chegou ao destino pelo qual havia sido guiado pelo computador do carro: um restaurante do lado de uma loja de reparos cujo letreiro dizia “Madison’s”. Um típico restaurante para aqueles que querem obter alguma disposição antes e depois do trabalho.

Sem desperdiçar tempo, ele logo estacionou em uma vaga ao lado de um carro prateado cujas marcas de batida revelavam que já havia visto dias melhores e de uma vaga exclusiva para deficientes físicos.

– Chegamos… Madame. – avisou meio forçadamente, já fora do carro.

– Relaxa, cara – replicou Alice. – Pode me chamar pelo meu nome mesmo. Não gosto muito desse tipo de formalidades.

– Tá certo. – travou o carro e dirigiu-se à entrada do restaurante.

Chegando à porta, eles observaram o interior do restaurante. Visivelmente mostrando certa falta de manutenção em algumas partes, que logo os donos passaram a chamar de vintage para cobrir despesas, possuía um ventilador que estava sempre apontado para o caixa, apesar de ter a função giratória, bancos estofados com couro bege, acompanhando uma mesa que tinha somente o necessário para um negócio daquele porte, um chão de ladrilhos xadrez que ninguém mais sabia quais eram suas cores originais e uma tevê que estava sintonizada em algum telejornal de uma emissora local.

Estavam sentados no restaurante um casal de velhos, que ficavam discutindo acerca dos valores nutricionais de uma torrada com manteiga; um executivo que não deixava de conversar com o chefe por telefone nem pra mastigar o prato de ovos com salsicha que já havia esfriado, denunciando o tempo da conversa – algo sobre a adoção de uma nova código de conduta para o uso do papel higiênico; o caixa, um homem de meia-idade lendo uma revista sobre curas para calvície; e uma mulher idosa, que ficava encarando o seu prato de panquecas com tanto afinco que dava pra pensar que ela estivesse tentando estabelecer alguma forma de comunicação mental com ele.

Sem perder tempo, os dois sentaram-se na mesa mais perto da entrada, e que tinha melhor acesso à tevê, e começaram a folhear os menus. Alguns minutos depois, eles foram atendidos por uma mulher de cabelos ruivos, trajando a camiseta de alguma banda cujo símbolo estava oculto pelo avental que usava de uniforme e calça jeans rasgada na região dos joelhos e que carregava um aparelho desenvolvido exclusivamente para anotar pedidos.

– Boa tarde. Sou a Madison do restaurante Madison’s, posso anotar os seus pedidos?

– Boa tarde. – saldou John. – Eu vou querer um café puro e um pacote de torradas, por favor.

– E eu vou querer um bolo de chocolate e um copo de leite  com chocolate, por favor. – pediu Alice.

– Vai querer calda de chocolate junto com o bolo, senhorita? – perguntou a garçonete, sem tirar os olhos do aparelho em posse dela.

– Pode ser.

– Aguarde só um segundo, que eu já trago os seus pedidos. – e saiu em direção à cozinha.

Assim que a garçonete saiu, Alice voltou os olhos para a televisão, que mostrava alguma notícia sobre cavalos. Como o volume estava baixo, a notícia se tornou um exercício de adivinhação para ela.

– O que é que tá na passando na tevê? – perguntou ela, desistindo de adivinhar.

– Isso? – perguntou, John, referindo-se também à tevê. –Deve ser outro caso de roubo de cavalos. Esse tipo de coisa vem acontecendo ultimamente, e até agora nninguém sabe direito o porquê. Provavelmente para vender no mercado negro ou coisa parecida.

– Pode ser. – respondeu ela.

– Você não é lá uma pessoa de muitas palavras, não? – perguntou ele, curioso.

– Sim. – respondeu ela, com um sorriso no rosto.

Chateado e ainda não sabendo como lidar com esse tipo de situação – ou com ela-, John decidiu também acompanhar o noticiário até, alguns minutos depois, a garçonete voltar com os pedidos: uma xícara de café e um cesto de torradas para ele; e um prato com um pedaço generoso de bolo de chocolate, um copo quase cheio até a boca de leite integral e um pote de chocolate em pó e outro de calda de chocolate para ela.

Enquanto ele colocava açúcar no café pra tirar parte de sua amargura, ela misturava o chocolate no leite e a calda no bolo. E foi quando ela colocou um pedaço do bolo na boca, que John viu a primeira manifestação de felicidade nos olhos da freelancer. Era a mesma emoção que ocorre quando uma pessoa reencontra um amigo há muito perdido. Tendo essa visão, ele realmente não sabia como uma pessoa daquelas tinha uma alcunha tão sombria. Tomado novamente pela curiosidade, ele então se viu obrigado a perguntar:

– Como foi que você conseguiu o seu título?

– É uma longa história. – respondeu ela, com o bolo ainda na boca. – Espere e verá.

Assim que ela terminou a primeira garfada no bolo, um barulho de moto pode ser ouvido do lado de fora do restaurante. Eram três homens que haviam decidido comer no mesmo lugar que o motorista e a freelancer. Sem se importar muito, eles decidiram estacionar na vaga de deficientes e entraram no local. Quando eles entraram, todo o som existente no ambiente – conversa, resmungo, noticiário- foi substituído pelo som da risada histérica de dois dos homens, dando a notar que o do meio seja o líder do trio.

Os dois usavam quase a mesma coisa, enquanto que o líder era mais arrumado. Eles vestiam um colete de couro marrom, calças feitas com o mesmo material – porém, mais desgastadas-, camisetas de algodão e sapatos de um couro de qualidade visivelmente inferior ao resto. E o líder vestia uma jaqueta de couro preto com o símbolo de uma águia estampado nela, uma camiseta de alguma grife de médio reconhecimento, calças jeans dotadas de um azul propositalmente desbotado, sapatos de couro marrom que valiam mais do que as vestes dos outros dois juntos e estava sempre com um pente à mão para o seu cabelo composto mais de gel para cabelo do que cabelo de verdade. E aparentavam ter entre vinte e vinte e dois anos.

Eles se sentaram no balcão do caixa, composto por cadeiras mais altas- para quem quisesse ter sua refeição de modo mais reservado- e foram atendidos pela mesma garçonete que atendeu John e Alice, porém deu um tratamento ríspido aos três, em vez do procedimento padrão.

– Já falei pra não vir mais aqui, Bill. – referindo-se ao líder.

– Ah, qual é Madison. – respondeu com um sorriso arrogante. – Você sabe que esse é o meu lugar favorito.

– Não devia ser desde a última vez que esteve aqui. O nosso cozinheiro principal ainda está no hospital pelo que você fez a ele.

– Cozinheiros existem vários, agora eu sou um só, garota. – tentou alisar o rosto dela, mas foi prontamente rejeitado. – Agora me traga três cervejas. Uma pra mim e o resto pros meus camaradas. – e se virou no banco para inspecionar as pessoas que estavam no local. – Tenho certeza que tem alguma alma caridosa aqui que vai pagar pela gente.

Todos no local deviam saber do perigo que ele representava, visto que evitavam qualquer tentativa de contato visual com ele, com exceção da Alice, que estava absorta demais no bolo para ouvir alguma coisa. Não reconhecendo ela, Bill levantou-se da cadeira e foi em direção à mesa de John.

– E aí, gata. – Disse Bill. Como ele estava muito perto dos dois, Alice conseguiu ouvir ao chamado, mas não deixou de comer o bolo. – Que tal você deixar esse idiota aí… – referindo-se ao John-… e subir na minha moto?

– Que tal não? – Alice respondeu e voltou a comer o bolo.

Diante de tal recusa, os capangas de Bill riram da cara dele, enquanto que ele se enchia de raiva, mas decidiu se controlar e logo retomou a expressão superconfiante.

– Ei cara, deixa disso. – John tentou intervir, com medo do que ele pudesse fazer – ela é nova no lugar. Dá um desconto pra…

– Senta tua bunda aí e cala a boca! – disse Bill, empurrando-o de volta ao banco. – O negócio é entre eu e a mulher aqui.

Ele então tomou o prato de bolo das mãos de Alice para conseguir a atenção dela, com sucesso. Ele fitou os olhos dela e pôde ver a sua expressão mudar para um tom extremamente hostil, mas, mesmo assim, ele decidiu seguir em frente com a cantada.

– Se você sair comigo eu te mostro um homem de verdade. – disse ele, sem desviar o olhar dos olhos dela.

– Eu já vi baratas mais macho que você. – Devolveu ela. Nesse momento, os capangas soltaram um riso histérico pra cima dele e até a Madison, que estava séria até agora, deixou escapar um riso. Os únicos que não riram com a resposta foram o John, que agora estava completamente tomado pelo medo, e o próprio Bill, que agora se tornou motivo de piada dos seus colegas.

Com o orgulho ferido e completamente envolto pela raiva, ele soltou um riso sarcástico e arremessou o prato de bolo no chão, despedaçando-se em vários pedaços irregulares. Assim que o prato tocou o chão, todo o ambiente emudeceu. Vendo que o seu café da manhã havia se tornado uma massa disforme, Alice fitou Bill com uma intenção assassina.

– Pague outro, agora! – disse ela lentamente.

– Não. – respondeu Bill, com um sorriso dissimulado.

– Pague outro. – repetiu no mesmo tom.

Bill então soltou toda a raiva de uma vez só.

– Se eu não pagar vai ter o quê?! – e bateu na mesa.

No momento em que a mão de Bill tocou a mesa, Alice sacou o garfo do bolo e com ele fincou a mão dele na mesa, soltando um berro de dor que alarmou os outros dois, que logo se levantaram para sacar suas armas e revidar o ataque ao líder deles.

Na mesma velocidade, Alice tomou em suas mãos a faca do bolo e a colher que usara para misturar o chocolate e o leite, se levantou do banco e, antes que o capanga mais distante pudesse sacar sua pistola, arremessou a faca, atingindo a perna dele, forçando a sua queda. Um a menos, por enquanto.

Quanto ao outro que já estava com a arma em mãos, ela se jogou na direção dele para desequilibrá-lo, ajeitou a colher na mão e perfurou com um golpe só a região entre as costelas, atingindo um dos pulmões. Aproveitando-se do golpe, ela chutou a parte de trás do joelho, colocando-o de joelhos, e bateu com a cabeça dele na quina da bancada, caindo no chão desfalecido.

Depois dessa cena toda, que durou por volta de quinze segundos, Bill finalmente conseguiu libertar sua mão do garfo e quando se virou para trás para poder revidar, ele deu de cara com o fundo do cano da pistola que Alice havia sacado depois de derrotar os dois capangas. Sem ter muito o que fazer, ele pôde ver pelos cantos dos olhos o estado de seus companheiros – um estava agonizando com uma faca na perna e outro estava desmaiado com o nariz quebrado e uma colher erguida no peito- e então levou uma pancada no rosto com o cano da arma, desequilibrando-se com o bolo e caindo no chão.

-Eu vou fazer isso. – disse ela. – Agora pegue seu pessoal e saia daqui se valoriza a sua vida. – continuou, apontando a arma para o rosto de Bill.

– Você ainda vai ouvir de mim! – exclamou ele, juntando o seu pessoal e saindo do restaurante o mais rápido possível.

– Pode apostar que sim, meu amigo. Pode apostar.

Ela então recolheu a arma com um flash de luz, deu um suspiro de alívio e voltou-se para John, que estava todo recolhido no banco, completamente aterrorizado, observando de perto a cena toda.

– Viu, é por isso que eu tenho esse nome. – disse Alice. Ela então se virou para a garçonete. – Agora moça, me vê outro pedaço de bolo, por favor?

– É pra já! – exclamou Madison, ainda surpresa com a cena. – Esse é por conta da casa.

– Gostei desse restaurante. – disse ela, com um sorriso.