Esses são dois dos termos que talvez nós mais entremos em contato ao longo das nossas vidas. Somos cidadãos em um país de governo democrático cuja economia é baseada no sistema capitalista, que por sua vez existe em um sistêmico mundo globalizado apoiado na política do consumo. Por outro lado somos nada além de meros Homo sapiens que, em virtude de uma magnífica ironia da natureza, desenvolveram consciência complexa o suficiente para criar um conceito de bem-estar além do mero “comer e procriar”.  O dinheiro é mais fácil de compreender, mas acredito que seria proveitoso expandir um pouco o conceito da tal da felicidade – aquela que procuramos sem muitas vezes saber como se parece seu rosto.

Em 29 de junho do ano passado foi aprovada pela assembléia geral da ONU (Organização das Nações Unidas) a inclusão do Dia Internacional da Felicidade em seu calendário oficial. – “A busca pela felicidade é um objetivo humano fundamental” diz a resolução que passou com unanimidade pelos 193 membros da bancada. Ah sim: o dia é 20 de março. Agora temos até um dia oficial para estar feliz, só falta saber o que é e como chegar lá!

Confúcio

Há milênios essa pergunta vem assolando a mente humana; desde profetas e filósofos, passando por cientistas até chegar em nós, esse nosso objeto de busca faz-se nebuloso e constantemente mutável: – “Qual a substância da Felicidade?”. Dizia certa vez Zaratustra quando questionado sobre ela: – “A felicidade persegue-me. Deve-se isto a eu não correr atrás das mulheres. Que a felicidade é mulher”. Postulava então que a felicidade é algo que tem existência e vontade próprias, aproximando-se por atração, ao passo que caso persiga-a, foge-lhe do alcance. Ela existe e habita onde for bem-vinda, não onde for caçada e encarcerada.

O meu filósofo favorito K’ung-fu-tzu ou Confúcio, dizia que “a Felicidade resulta de um caráter reto, uma consciência tranquila e um coração pacificado”. Trazia principalmente a felicidade como um caminho baseado na plena vivência de todas as possibilidades de existência. Um caráter reto é aquele adequado à circunstância natural, maleável como bambú mas com raizes fortes. A consciência tranquila seria fruto da simplicidade da sabedoria verdadeira, aquela que permite que tudo seja uma ocorrência natural. O coração pacificado então seria resultado da unificação com o Tao e livre de amarras egóicas que enrigessem a existência. É, ele nunca foi muito bom em ser claro, não se desespere caso não tenha entendido! Parte da escolástica confuciana é, ironicamente,  propositalmente confusa.

Já Sigmund Freud, psiquiatra austríaco fundador da escola Psicanalítica e criador dos seus conceitos basilares como o inconsciente, defendia um conceito chamado “Princípio do Prazer”. Através dele, basicamente e sem entrar nos detalhes do princípio da morte, o indivíduo seria movido pela eterna busca pela felicidade e satisfação pessoal. Todavia o indivíduo vê-se existindo no mundo real, onde experiencia fracasso e dor, impedindo-o permanentemente de atingir o estado de graça imaculada. Tudo que ele conseguiria então, seria uma felicidade parcial e limitada frente ao seu conceito perfeito idealizado. Fadados estaríamos então à insatisfação, todavia podendo experienciar essas menores formas de bem-aventurança.

Felicidade e Sociedade

Depois de trazer essas três visões diferentes, podemos concluir algo que muitos já têm como resposta: a felicidade é, sobretudo, relativa. Muito difícil limitar as características necessárias ao seu plantio. Consigamos talvez, porém, definir com mais facilidade os elementos que dificultariam seu florescimento: dor, sofrimento, angústia e ansiedade são alguns deles. Eles seriam como antagonistas naturais da nossa tão idealizada felicidade e, mesmo sendo de natureza relativa, podemos com facilidade prever que o sofrimento, por exemplo, limitaria quase qualquer uma das variantes pessoais. Fica meio difícil identificar o rosto do prazer quando imerso em um poço de infelicidade.

Sendo assim chegamos ao dinheiro. Como ele pode comprar felicidade sendo que, ela própria, já é de natureza tão confusa e etérea? Jazeria ela em um carro novo, em um celular moderno, talvez? Numa roupa de grife ou num cachorro-quente daquela barraquinha que tanto gostas? Seria o pobre então, infeliz ou incapaz de buscar sua felicidade, princípio tão defendido pela constituição dos Estados Unidos da América? Difícil dizer ao certo. Temos exemplos de grandes pessoas que renegaram a vida de consumo e dedicaram-se à humildade e às outras pessoas: Gandhi e Madre Tereza são exemplos conhecidos e que viveram, até que provem o contrário, felizes. Mas somos pessoas de carne-e-osso, a final, e nem todos partilhamos o heróico caminho do altruísmo. Vivemos na sociedade e poucos de nós escolhem renegá-la, temos portanto que sobreviver nos padrões por ela delimitados – sendo o dinheiro fator inegavelmente basilar.

Pôr-do-Sol

Não é ao certo, portanto, que dinheiro nos vá trazer felicidade. Ela tem muitas faces, algumas delas suscetíveis ao consumo, sem dúvida, e outras tantas totalmente fora do seu alcance. “Algumas coisas não têm preço” como dizia o slogan de uma conhecida empresa de crédito. E é a mais pura verdade.

Ainda assim, ter dinheiro nos poupa de lidar com sofrimento e com a angústia. Tê-lo nos livra da fome, nos dá um teto sobre as cabeças, nos dá conforto nos dias quentes ou frios. Permite-nos manutenção da saúde adequada, tanto física quanto emocional, e permitem também o contato com os pequenos prazeres que fazem a nossa vida mais saborosa. Permite-nos certo convívio social e paz de espírito para aproveitá-lo com tranquilidade.

Dinheiro, então, não traz felicidade. Mas definitivamente afasta alguns dos nossos sofrimentos ou angústias mais comuns e aos quais estamos à mercê na era moderna. Cabe a nós a manutenção do equilíbrio: trabalhar por dinheiro suficiente para nos garantir a condição básica para que, com maior tranquilidade, possamos buscar nossa felicidade: tenha ela a identidade que tiver.