Muitos de vocês, assim como eu, têm percebido ao longo dos anos o aumento da valorização no pertencer à tribo “Nerd“. São vários os ambientes onde as características que antes eram estigmatizadas agora se tornam populares e dignas de nota. Vemos cada dia mais a sua influência na música e arte, mas suas marcas estão principalmente na cultura popular onde o conceito dilui-se e acaba trazendo perguntas como: “Afinal, o que é ser Nerd?”.

Inicialmente o termo foi criado para descrever pessoas com elevado potencial intelectual mas com dificuldades nas relações interpessoais, principalmente ao não serem populares ou não obedecerem os padrões sociais de comportamento. Quotando Paul Graham: – “Existe uma relação entre ser esperto/inteligente e ser nerd, ou melhor, há uma correlação inversa maior ainda entre ser nerd e ser popular. Ser esperto parece fazer a pessoa não popular”. Eram aqueles que eram péssimos em esportes, solitários e ocasionamente sofriam bullying em virtude disso.

Nerd

Ao longo do tempo esse conceito acabou se tornando mais abrangente e, por consequência, menos preciso. Atualmente aplica-se a terminologia Nerd de maneira folgada, confundido-o com CDF, Gamer e Otaku, entre outros. Definir o que é cada um não é, nem de perto, meu intuito nesse texto. Mas é sim abordar que o fenômeno mais interessante talvez tenha sido passar de uma pária social diretamente à pop. Se antes era um xingamento, hoje chega a ser uma ofensa aos adolescentes não serem considerados pelo menos em parte pertencentes ao grupo Nerd. Sim, aos adolescentes.

É uma característica comum ao Homo sapiens, primata bípede não-caudado gregário que é, a necessidade de pertencimento. Precisamos de apoio social, de segurança simbólica, de confiança em nossos pares, ou seja: pertencer a um grupo. É uma necessidade básica para a nossa sobrevivência, trazida dos outros gêneros Homo, nossos antepassados. Mas no ambiente das selvas urbanas, de saltos culturais entre pais e filhos, de expectativas e responsabilidades tremendas, torna-se mais difícil a identificação de grupo – principalmente no período da adolescência. Momento marcado por profundas mudanças emocionais e orgânicas onde o instinto de tribo grita mais alto, onde procurar por seus semelhantes é necessidade irremediavelmente gritante, ao ponto de ser definidor das nossas personalidades. É comum nessa idade perdermos nossa referência pessoal de identidade para a referência social de tribo. Deixamos de ser Fulano ou Fulana para nos tornamos Rockeiros, Metaleiros, Góticas, Patys, CDFs, Boleiros, Clubbers, Punks, Praieiros, Skatistas, Vileiros… até Nerds!

Tribos Urbanas

A grande diferença é que atualmente as características definidoras modernas (e discutíveis) do Nerd – gostar de jogos de computador, desenhos, HQs, super-heróis, livros de fantasia etc. – está presente em uma enorme maioria da população. Difícil achar um adolescente ou jovem adulto que não goste de pelo menos um desses assuntos. De excluídos socialmente, os nerds se tornaram verdadeiros coringas sociais – canso de ver membros de tribos totalmente diferentes terem um assunto em comum discutindo um jogo ou um filme. A cultura moderna é inundada de referências ao virtual, ao fantasioso e ao fictício, nada além de natural as características nerds se tornarem muito mais difundidas. De dois de paus passaram a ser verdadeiros àses de espadas.

Há quem ache isso ruim. Vejo muita reclamação de que agora qualquer um é nerd: qualquer um pode colocar óculos e morder controle de XBOX. E é verdade. A cultura nerd deixou de ser privilégio (ou deveria dizer maldição, sendo fiel ao termo original?) de poucos e se tornou pertencente à base de quase todas as tribos. Ter medo disso não é nada mais do que aquela supracitada necessidade adolescente de identificação social. – “Mas pera aí, se qualquer um pode ser nerd, quem sou eu?” é a pergunta que está por trás desse medo, dessa xenofobia ativista pela definição das características da tribo, pela exclusão de membros pertencentes à outras. – “Eu sou um verdadeiro nerd, não você, seu poser!” é o que gostariam de gritar aqueles que têm pouca referência interna de identidade. Deixam de perceber que ser nerd e pop pode ser uma coisa extremamente legal, só decidir valorizar mais os lados positivos das duas coisas!

Logo depois de perdermos nossa identidade para as tribos na adolescência, amadurecemos e tornamos nosso Ego mais forte. Deixamos de lado as tribos e podemos voltar a sermos Fulano ou Fulana que gosta de coisas diferentes, sem precisar ser algo além de sí mesmo. Nos tornamos mais seguros, com uma identidade pessoal mais sólida, sem precisar nos referenciarmos tanto no externo para encontrar sentido e direção para nossas atitudes e preferências. Nos tornamos, de facto et de jure, indivíduos. Únicos, raros e indepentendes de classificações (até certo ponto, claro).

O Nerd original ainda existe? A resposta é “sim”. A necessidade instintiva de inclusão dos iguais anda de mãos dadas com a necessidade de exclusão dos diferentes. Sempre haverão os excluídos, e suas características dependerão do que é mais incomum em uma dada sociedade. Falta de habilidades sociais ou físicas também existem e existirão independe de tribos. Agora, se você quer forçar a barra pra se tornar excluído e se tornar um “Nerd Cinco Estrelas” só em virtude da definição original dizer que tem que ser assim… meus pêsames e meu desejo de boa sorte. Já pensou que você pode ser excluído por milhares de outras razões e não por ser Nerd?

Cabe a vocês decidirem as características que querem nutrir e cultivar para o seu indivíduo futuro, quando puderem se apoiar não mais numa mera convenção social ou estigma, mas sim no que realmente são, indepentende de tribo. As características nerds se tornaram pop, quer você queira quer não – aproveite a onda, se tiver a sabedoria para fazê-lo!!