Seu amigo vai à sua casa pra uma sessãozinha básica de revezamento daquele game pelo qual vocês são doidos. Diante da demonstração da sua habilidade sobrenatural, fruto de várias horas de treino, seu amigo exclama:

-“Caramba cara, seu viciado!!!”
E naturalmente você responde:
-“Haha, valeu pelo elogio 😉 seu newba

 

Será que isso é realmente deve ser considerado um elogio?

O tema da compulsão por jogos, ou ludopatia, não é novo. Há muito tempo ela já é considerada uma disfunção séria do comportamento, mas somente há 30 anos vem sendo estudada cientificamente, quando é integrada como uma patologia no DSM III (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, revisão III). Já pela OMS (Organização Mundial de Saúde), foi reconhecida como doença somente a partir de 1992, e sua caracterização, em linhas gerais, é simples:

 

“Incapacidade da pessoa em controlar o hábito de jogar, a despeito de todos inconvenientes que isso possa estar proporcionando, tais como problemas financeiros, familiares, profissionais, etc.”

 

Segundo o DSM IV¹, o diagnóstico do jogo patológico segue os seguintes critérios:

 

1. – Preocupação com jogo (preocupação com experiências passadas, especulação do resultado ou planejamento de novos métodos, pensamento de como conseguir tempo para jogar);

2. – Necessidade de aumentar o volume de tempo e intensidade das sessões para alcançar a excitação desejada;

3. – Esforço repetido e sem sucesso de controlar, diminuir ou parar de jogar;

4. – Inquietude ou irritabilidade quando diminui ou pára de jogar;

5. – Jogo como forma de escapar de problemas ou para aliviar estado disfórico (sentimentos de desamparo e culpa, ansiedade, depressão);

6. – Depois da perda de dinheiro no jogo, retorna freqüentemente no dia seguinte para recuperar o dinheiro perdido;

7. – Mentir para familiares, terapeuta ou outros, a fim de esconder a extensão do envolvimento com jogo;

8. – Cometer atos ilegais como falsificação, fraude, roubo ou desfalque para financiar o jogo;

9. – Ameaçar ou perder relacionamentos significativos, oportunidades de trabalho, educação ou carreira por causa do jogo;

10. – Contar com outros para prover dinheiro, no intuito de aliviar a situação financeira desesperadora por causa do jogo.

 

Sim, pelo ponto de vista Psiquiátrico estamos falando do “Jogo” como aqueles de Bingo, Caça-Níqueis, Carteado, Jogos de Azar e todos aqueles que envolvem apostas. Mas talvez você só tenha reparado isso por volta da metade da tabela acima. De certa maneira, um se assemelha muito com o outro, não é?

Agora sim, vamos falar dos Games. Tema de estudo somente nessa última década, se não nos últimos sete anos, o vício em games acabou passando desapercebido pela pesquisa e pela atenção da população. Em uma sociedade em que o abuso de estímulos é normal e caracterizamos como “vício” somente casos extremos que põe em risco a produtividade do indivíduo (álcool e drogas, por exemplo), o tema fica extremamente difícil de tratar. O que é vício, afinal de contas?

“Se eu ficar todo dia três horas jogando é vício? E se eu ficar no Facebook? E se eu passar a madrugada inteira fazendo Raid no WoW, ownando os newbas do DotA ou colando naquele D20 esperto na casa do fulano?”

Tem um sério risco que você só seja desocupado ou desocupada né, sejamos sinceros. Vários pesquisadores têm lidado com o tema da patologia do vício em games nos últimos anos. Uma pesquisa ² da Universidade de Iowa no ano de 2003 mostrou que uma em cada 10 crianças que jogam video-games mostram sinais de vício, como por exemplo jogar mais do que 24 horas semanais vai fazendo as contas aí mewe, pelo menos seis das dez características do jogador compulsivo, listadas acima.

 

As consequências desse comportamento são várias. Um estudo recente publicado na revista Pediatrics³ concluiu que, do total de gamers adolescentes, 9% apresentam características de risco para tornarem-se jogadores patológicos, como: horas excessivas, baixa competência social e grande impulsividade. Associado ao vício, mostraram também taxas maiores de ansiedade, fobia social, casos depressivos e menor desempenho escolar como efeito colateral da compulsão.

 

Outros estudos parecem conseguir resultados similares na caracterização da patologia da compulsão por Games, principalmente na sua prevalência: 8 a 11% da população gamer. Se você não conhece nenhum é porque você que é o viciado.

 

– “Ai meu Deus! Baha, então eu sou um viciado?”

Parafraseando Douglas Gentile, um dos pesquisadores, na sua entrevista dada em 2007⁴: “É importante que as pessoas entendam que jogar muito não é a mesma coisa de jogar patologicamente. Para algo ser considerado um vício, tem que significar mais do que fazer muito. Tem que significar que você faz isto de uma maneira que prejudica sua vida”. Ou seja, não é só porque você fica com os zói vermêi de tanto jogar que você é viciado!! Mas fica a dica, que se isso começar a atrapalhar na sua vida pessoal, talvez seja hora de rever seus conceitos.

– “Que que eu posso fazer pra jogar sem ficar newba mas também sem perder minha alma, então?!? : ( ”

Antes de qualquer coisa, lembrar que jogo tem como objetivo principal a diversão e o passa-tempo. Para nós gamers, poucas coisas são tão boas quanto chegar em casa depois de um dia cansativo de faculdade/trabalho e poder curtir uma noite com a galera da internet, matar uns zumbis, pegar uns leveis. Mas repare que para isso ser tão legal, a gente meio que precisa chegar em casa sem estar cansado e a fim de jogar!! Experimenta ficar três dias jogado no sofá comendo cheetos e jogando pra ver como isso não se torna extremamente aversivo e chato!! Se não se tornar, você é viciado.

Se você começar a boicotar sua vida pra jogar… Poxa… Alguma coisa está errada!! Ao invés de ficar lá se internando no Game e se escondendo do que realmente está te fazendo mal na sua vida, go encarar essa parada!! Afinal de contas, quando Frodo descobriu que ele estava com o Um Anel, ele não se internou na pinga/sexo/drogas/rock n’ roll/games para esquecer do problema!! Ele foi lá e, simplesmente, entrou andando em Mordor pra dar de cara com o drama!! Não se esquece de Sam também, que deu uma força violenta!!

 

Por fim, mas não menos importante, eu sempre falo que apesar de ter que leveiar meu personagem no Game, eu também preciso parar e voltar a leveiar meu personagem na RealLife!! Afinal de contas, se ele não estiver feliz, nenhum jogo do mundo vai diverti-lo!! Eu odeio falar sobre eu mesmo na terceira pessoa.

 

E sim, ser viciado é um elogio!! Mas só se isso for uma analogia ao ser fodão, matar todos no PvP, estar com gear full e terminar o mapa sem deaths!! Porque, como nós vimos, ser patologicamente viciado pode ser um death curse violento no nosso personagem RL, acho que nem vale a pena o risco hein!!
Fiquem de olho e game on!!

ESCRITO POR:
Yuri Dittrich P. da Silva, Psicólogo (CRP 08-16388), Nerd e Gamer.

 

 

REFERÊNCIAS:

¹AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-IV – Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Porto Alegre, Ed. ARTMED, 2002;

²http://www.psychology.iastate.edu/~dgentile/SRCD%20Video%20Game%20Addiction.pdf acessado em Fevereiro de 2012;

³http://www.pediatricsdigest.mobi/content/127/2/e319.full acessado em Fevereiro de 2012;

http://www.digitaltrends.com/gaming/nearly-1-in-10-child-gamers-are-addicts/acessado em Fevereiro de 2012.