“E quando ele abriu o quarto sêlo, ouvi a voz do quarto animal, que dizia: Vem e vê. 8 E apareceu um cavalo amarelo: e o que estava montado sôbre êle tinha por nome Morte, e seguia-o o Inferno, e foi-lhe dado poder sôbre as quatro partes da terra, para matar à espada, à fome, e pela mortandade, e pelas alimárias da terra.”

Apocalipse de S. João Apóstolo; 6, 11¹

Atualmente vivemos a ascensão (e quem sabe, o auge) da mais moderna interpretação do Mito Apocalíptico  até então. Muitos de nós viveram o final do milênio passado, regado por interpretações Apocalípticas do fim da Vida como a conhecemos. Fomos contemporâneos de seitas que promoveram o suicídio em massa em prol das mais diversas formas de “Revelação”; desde Aliens à Santos. Quer queira quer não, estamos aqui por enquanto.

A palavra “Apocalipse” vem do grego, onde algo que estava velado, escondido por um véu (kalumna) agora torna-se desvendado (apo) formando a tão conhecida “Revelação” ou “Apokálypsis”². Originalmente ela denota o mito do fim da vida e sociedade contemporânea e, a partir de muitas interpretações, um estágio necessário para a ascensão e continuação da existência, porém agora sobre novos princípios justos e adequados. Símbolo dos derradeiros dias do mundo, que serão marcados por fenômenos espantosos: gigantescas rebentações dos mares, desabamentos de montanhas, medonhos escancaramentos da terra, vastos incêndios no céu, num indescritível fragor. O apocalipse torna-se, assim, símbolo do fim do mundo³. Vemos esse símbolo mitológico em culturas Celtas, Maias, Proto-germânicas (Nórdicas), Indianas, Africanas, Indonésias, Egípcias e muitas outras³, além das mais contemporâneas e institucionalizadas mitologias monoteístas. É a representação da Morte na sua mais pura essência: o fim do conhecido e o início do desconhecido além-vida.

Agora temos nossa própria versão moderna desse fenômeno: O Apocalipse Zumbi.

A figura mais antiga (que eu conheça) dos mortos vindo devorar a carne dos vivos vem da Epopéia de Gilgamesh (de aproximadamente 2,750 anos antes de Cristo), onde a deusa Inana (ou Ishtar), após ter se oferecido a deitar com Gilgamesh, foi totalmente rejeitada e insultada. Tomada pela ira, ela vai até seu pai Anu e pede que ele deite a destruição sobre a terra e sobre Uruk, pelos cascos do Touro Celestial (a constelação de Touro). Diz ela então:

“Os celeiros estão transbordantes de grãos e os campos verdes de pasto para os animais. Dê-me o maldito Touro e o povo se alimentará com fartura nos sete anos vindouros (…). Mas dê-me o Touro, e já, pois se não o fizer muito em breve os mortos se nutrirão dos vivos e os vivos dos mortos!”⁴

No texto original, Ishtar ameaça, literalmente, abrir os portões do submundo e liberar os mortos, para que se alimentem da carne dos vivos:

“Eu vou derrubar os portões do submundo,
Eu vou despedaçar as batentes, e deitar as portas ao chão
Então deixarei que os mortos subam e comam os vivos!
E os mortos mais numerosos que aqueles serão!”⁵

Provavelmente há muitos exemplos de tal simbologia: dos mortos saindo do submundo e vindo devorar os vivos. Muitas delas desconheço, mas lembro muito claramente de um evento na Grécia antiga nomeado de Apophrades. Esse era o dia em que os mortos saíam de seus túmulos e vinham visitar suas famílias e lares. Não literalmente, claro, já que essa era uma apologia trazida pela visão Empedocliana (de Empédocles) onde, apesar da chama divina ter na morte abandonado o corpo, os atos do que era então vivo permanecem e são transferidos a seu daemon⁶. Portanto, de uma maneira simbólica, os mortos voltavam à vida na figura das atitudes que tiveram enquanto vivos, e permaneciam rondando a terra. Essa visão era feita da forma mais visceral, não mais travestida pelos ritos mortuários, mas sim com uma conexão direta com a putrefação da carne. O Apophrades era um período de má-sorte, impureza e morte, mas ao mesmo tempo de purificação e redenção com aqueles que partiam. Era comum se fazerem diversos julgamentos e sentenças sobre casos antigos relacionados aos mortos e também aos vivos, a fim de atenuar a mácula dos que partiram.

A figura da entidade morta-viva é interessantemente comum. Ela é vista em diversas culturas, com exemplos a citar: o Ghoul (ou originalmente, ghūl) do folclore árabe, criatura que habita cemitérios e se alimenta de carne. Os Draugr sim, isso existe fora de Skyrim, seu nerd da cultura Proto-germânica, aqueles que estavam mortos e voltam a andar. No Judaísmo vemos a figura do Golem, que não é exatamente um morto-vivo, mas vida criada da matéria inanimada. Vemos na cultura chinesa os Chiang-shih, vampiros ou mortos-vivos que se alimentam dos viventes. Múmias, Vampiros, Liches, Esqueletos… e até que enfim: os Zumbis Hoodoo do folclore de algumas culturas africanas (não confundir Voodoo com Hoodoo: um é uma religião, outro é uma prática ritualística específica, respectivamente).

Nossa talvez não tão querida figura do Zumbi moderno é a lenta transição do Zombie Hoodoo. Sua raiz é o folclore africano, estabelecendo-se principalmente em países centro-americanos, e, emblematicamente, no Haiti. Ele é um corpo morto e que foi animado utilizando-se de feitiçaria, não é dotado de consciência, porém é atento à sua volta sendo respondente à estímulos externos. Obedece estritamente o feiticeiro que operou o ritual. Existe muita informação legal sobre as teorias acerca da “zumbificação”, mas que são tão interessantes que merecem um artigo próprio!

Chegamos ao zumbi que conhecemos. A figura emblemática aqui é a de George Romero, como quem trouxe o tema do apocalipse zumbi à cultura popular, que lentamente desenvolveu-se para o que hoje é o zumbi moderno. Não mais lento e cambaleante como antes, agora muitos deles são rápidos e implacáveis, como no game Left 4 Dead, filmes como Dawn of the Dead e livros como o famoso Guia de Sobrevivência de Daniel Brooks.

Mas por que Zumbis? Qual o motivo deles terem feito tanto sucesso no nosso imaginário pós-moderno? Já tivemos tantos cenários apocalípticos na nossa cultura até então, o que os Zumbi têm que os outros não?

Acredito que isso se dê por múltiplos fatores, e entramos aqui em um setor não mais de fatos históricos ou discussões acadêmicas, mas simples suposições bem-fundamentadas.

Inicialmente, vivemos em uma era de distanciamento da Morte. Sempre vivemos, mas ela está cada vez mais ameaçadora. A poucos séculos atrás, a expectativa de vida de um humano era de pouco mais do que 50 anos, enquanto hoje quem viver menos que 70 “morreu cedo”. Fugimos da velhice e dos aspectos que sequer lembre morte – rugas, dores, falta de aptidão física são abomináveis e passíveis de terror. Não visitamos nossos mortos, não fazemos para eles rituais como antes – agora os cremamos, quando muito os enterramos. Estamos cada vez mais aptos a tapar essa realidade fatal, a de que a morte existe. Ao passo que a reprimimos com toda a força, ela volta com mesma intensidade através da figura mitológica do Zumbi.

Seres mortos, decadentes, putrefatos e ensopados de sangue coagulado. Seu couro cabeludo, ou o que resta dele, cobre pontos expostos de seu crânio já tornando-se cinza. Onde haviam antes olhos brilhantes e cheios de vida, jazem globos empalidecidos que comunicam morte. E o pior: essas carcaças andam em sua direção, prometendo-o uma morte lenta e dolorosa, e o seu posterior retorno como tudo aquilo que repudiou durante a vida.

Os mortos travestem nossos medos mais profundos e irremediavelmente escondidos da luz da consciência pelo homem moderno. Lidamos com a morte todos os dias, mas de maneira mais e mais fugaz: ligamos a TV e abrimos o jornal para notícias de mortes e catástrofes, as quais arrebatamos com indiferença. A morte é distante – a ilusão da vida é próxima.

Tudo isso cai por terra no Apocalipse Zumbi. Nele, as vestes da sociedade moderna – consumismo, individualismo, industrialismo, capitalismo entre outros – desaparecem como a nuvem etérea que são, dando lugar à mais instintiva e natural das nossas praticas: a sobrevivência. Ao nos vermos parte de um mundo onde essas ilusões sociais se desfiguram e nos jogam na cara nossa falta de conexão com a realidade da sobrevivência, vemos o cenário ideal do Apocalipse: o fim de uma era de sombras e frugalidades, a esperança do renascimento a partir de qualidades verdadeiramente necessárias para nossas vidas.

Vem portanto a figura do Sobrevivente, que por si é um pouco mais complexa. Ele vive em um ambiente hostil e a ele sobrevive como pode, quase como uma figura heroica. Ele tem uma espécie de “licensa para matar” figuras humanas, já que é por sobrevivência. Vemos o auge da violência que nos permeia e que ao mesmo tempo a ela dávamos de ombros. Agora o sobrevivente é ator principal na violência contra sua espécie, e sofre as consequências psicológicas disso.

Vejo o Apocalipse Zumbi como, literalmente, nossos mortos – o esgoto, a podridão e a decadência – saindo das covas onde os colocamos para tomar seu devido espaço nas nossas vidas. Todas as nossas atitudes e posturas, todas nossas sombras e nossos malfazeres não desaparecem entre as areias do tempo, pelo contrário – aguardam. Zumbis são o símbolo maior das consequências nefastas dos nossos atos impensados, da nossa sociedade decadente e das nossas personalidades alienadas que voltam para nos jogar na cara o que realmente somos: somos também morte, violência, podridão. Não há leis, não há deuses, não há sabedoria e não há botox suficiente para nos salvar das cinzas.

Não é a toa que ao mesmo tempo que surge o Zeitgeist e a consciência ecológica, surja também o zombie mythos. Vivemos em uma época de encarar as consequências, não mais de mascarar a nossa própria realidade.

O mito do Apocalipse Zumbi traz não somente a morte do mundo, mas a morte do mundo tal qual o conhecemos, assim como a promessa de um renascimento mais justo e consciente através da realização da nossa natureza completa e única. Não somos só beleza ou progresso, somos também violência e putrefação, somos mais do que vida ou morte: somos a vida que levamos, somos a forma que sobrevivemos.


Escrito por: Yuri Dittrich P. da Silva
Nerd, Gamer e Psicólogo (CRP 16388-08)
Referências:
¹ Bíblia Sagrada (1971) Bíblia Sagrada edição Barsa (Trad. Pd. Figueiredo, A. P.) (Novo Testamento, pp. 230). Rio de Janeiro: Catholic Press.
² Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Apocalipse) acessado em 22/04/2012.
³ Chevalier, J., & Gheerbrant, A. (2006). Dicionário de Símbolos. (pp. 65-66) Rio de Janeiro: José Olympio.

⁴ Franchini, A. S., & Seganfredo, C. (2008). Gilgamesh: O primeiro herói mitológico. (pp. 193). Porto Alegre: Artes e Ofícios.

⁵ Epopéia de Gilgamesh – Texto Original, Tábula VI
(http://www.ancienttexts.org/library/mesopotamian/gilgamesh/tab6.htm) acessado em, 22/04/2012. Tradução livre por Yuri Dittrich P. da Silva.
⁶ Bloom, H. (1971). The anxiety of influence – a theory of poetry. London: Oxford University Press. Disponível em (http://web-facstaff.sas.upenn.edu/~cavitch/pdf-library/Bloom_Apophrades.pdf). Acessado em 22/04/2012.