Vivemos em uma sociedade de produção e de trabalho. “Tempo é dinheiro” como diz o ditado; “O Tempo Urge” diz outro não tão veiculado;  “O Tempo não pára” já cantava Cazuza. Nas nossas vidas cotidianas já temos uma Matrix muito mais simples do que imaginávamos, somos reféns e escravos da nossa própria criação: o relógio.

Estamos presos à noção de seguí-lo aproveitá-lo da melhor maneira possível. Perder tempo não é admissível, jogá-lo fora muito menos. Qualquer atitude que nos desvie de um caminho cuidadosamente planejado, onde teríamos somente investimentos seguros e rentáveis do nosso tempo (estudo, trabalho, leitura, produção…) já é digna de culpa. Até o ato de divertir-se, hoje em dia, é um investimento cuidadoso e consciente do nosso tão precioso prazo de vida! – “Precisamos de férias!” exclama a massa, enquanto já deixam tudo devidamente planejado: todas as festas, todas as viagens, todas as horas descansando na rede. Deixar de ir àquela balada por mera preguiça é inadmissível: – “Precisamos aproveitar enquanto podemos!” dizemos para nós mesmos, enquanto forçamo-nos um ritmo imposto, não sentido, mas idealizado.

Relógio do Louvre

Será que o nosso destino é correr atrás do tempo perdido?

Toda perda de tempo na nossa sociedade é pautada em um conceito muito simplista de ideais aliados à produção. No fim, todos nós nos perguntamos:  – “Como eu posso me tornar um indivíduo melhor, ser mais feliz, ser mais capaz?” e, a partir das respostas que obtemos, moldamos a nossa forma de aproveitar o período que nos é dado.

Uso como exemplo uma hipotética criança super-dotada: qual a melhor forma de instigar seu gênio, de contribuir com suas potencialidades? Deveríamos colocá-la em uma classe avançada, onde pudesse ter mais oportunidades de aprender, ainda que isso queira dizer menos diversão? Ou será que a colocamos em uma classe normal, com outras de sua idade, mas assim deixando de aproveitar seu enorme potencial cognitivo? Valorizamos mais sua felicidade ou sua capacidade intelectual, ou eventualmente os dois ao mesmo tempo? Será que ela deve começar com Francês ou Alemão (já que o Inglês é inquestionável, estamos decidindo o outro idioma que ela vai aprender em paralelo). Nos delírios de aproveitamento dos ideais depositados sobre ela, esquecemos de simplesmente perguntar:  – “Querida, o que você gostaria de fazer hoje?”.

Até certo ponto, somos todos crianças super-dotadas. Todos temos características que podemos desenvolver, papéis que podemos desempenhar, pessoas que podemos nos tornar. Mas todas essas perspectivas são exatamente isso: potencialidades, ideais que pertencem ao futuro. Nós mesmos fazemos o papel de nossos carrascos, dizendo – “Você poderia ser tão mais!” enquanto não nos permitimos aceitar o que somos, impondo expectativa sobre expectativa. Pulamos de ideal em ideal, para nunca parar de produzir e reinventar a nossa mais longa obra: nós mesmos. Isso tudo sem sequer nos perguntar – “O que eu gostaria de fazer hoje?”.

Estações

Vivemos em um mundo marcado por ciclos de mudanças espontâneas

Veja bem: isso não é exatamente algo ruim. Precisamos de metas e de objetivos, de motivação e de expectativas sobre nós mesmos. Todavia, o segredo do sucesso é a moderação. Assim como precisamos de algo que nos impulsione pra frente, que coloque nossa energia para circular, também precisamos da segurança e da tranquilidade de uma tarde deitados na grama, olhando as núvens passarem.

Do ponto de vista orgânico precisamos da liberação de adrenalina, mas também precisa haver um momento do seu retraimento. O conceito de estresse é exatamente esse: o esforço de superar uma exigência externa (luta ou fuga) que nunca acaba, nunca termina, nos fadigando tanto fisica como mentalmente. É como se precisássemos lutar com ou fugir de um leão desde o momento que acordamos até o momento que desmaiamos em exaustão, somente para começar tudo de novo dia seguinte.

Nossos organismos têm ritmos próprios, auto-gerenciados: um ciclo de expansão e contração, de trabalho e repouso, de aquecimento e resfriamento, de tensão e relaxamento. Privar-nos de um dos lados da escala vai, mais cedo ou mais tarde, resultar em algum tipo de adoecimento (seja físico, seja psicológico). Do ponto de vista do nosso corpo, não existe perda de tempo: existe fazer o que ele precisa nesse momento. O corpo não produz ideais: o corpo sente, o corpo responde.

Mas nos limitar a isso seria injusto com nossa mente idealizante que precisou pensar e estruturar o tempo ao invés de simplesmente sentí-lo. Ela planeja, ela produz expectativas e nos impulsiona para algo além de mera sobrevivência ou instinto. Do ponto de vista dela, só existe perda de tempo pois trabalha, por definição, com coisas aquém ao momento e ao presente.

tartarugas bebês

Tartarugas bebês seguem seu ritmo natural

Não cabe a nós correr atrás do tempo perdido, mas sim aproveitar, dar voz e força às vontades e aos anseios contrastantes que nos habitam, cada qual ao seu momento. Enquanto vivermos esses sentimentos e sensações ao invés de meramente trabalharmos pela sua eterna produção, teremos uma existência onde “perder tempo” talvez seja, algumas vezes, algo extremamente interessante. Não é possível viver em tensão, enquanto viver do relaxamento é tão ruim quanto. Escolher entre um ou outro é uma solução simplista para um problema complexo: respeito e aceitação do nosso ritmo pessoal versus a adequação e experiência do ritmo imposto pelo ambiente.