Realmente essa vida dupla tem me cansado bastante, e antes que comecem a especular: não, eu não sou uma Drag Queen (nada contra elas… Eles, ah você entendeu certo?), sou hétero e estou feliz com isso. Por vida dupla entenda que sou um estudante de engenharia, mas também sou um escritor (sim, também acho muita presunção minha me considerar um “escritor”, mas tudo bem porque sou presunçoso mesmo). Enfim, trocando em palavras mais simples eu sou casado com as ciências exatas, mas pulo a cerca com as humanas.

Entenderam?

Engraçada essa designação: “Humanas”, como se não tivesse nada de humano em ciências exatas, o que torna todos os estudantes de exatas pessoas “não humanas” ou menos humanas por terem escolhido-as como seu ganha-pão. Enfim, se você ainda não pegou o espírito da coisa, eu vou tentar mostrar o lado humano das exatas e o lado exato das humanas. “Pode isso Arnaldo?!”

Sim, pode.

O google concorda comigo!

Interessante em escrever é que o texto sai pronto pra você, ou melhor, eu acho que o texto não está em você, e sim no papel. Ele já está pronto, em tudo que você vê e em tudo que te inspira a escrever, ou a pensar em escrever. Você vai tirando do papel o que queria dizer e o que você pensou. O texto vai ganhando forma, movimento e vida. Isso porque ele só lhe pertence enquanto você o escreve, depois de pronto ele anda por si só, tem personalidade e pode tanto elogiar o seu criador, bem como pode cuspir na sua cara, e é por isso que se deve ter cuidado com o que se escreve.

Olhando dessa perspectiva poderia chamar a todos que escrevem, ou já escreveram, de “artesões da palavra”, e a forma como você tira o texto do papel te torna um artesão/escritor melhor ou pior. A arte de escrever pode parecer puramente intuitiva, mas na verdade, nas entrelinhas mais obscuras do pensamento humano a lógica se manifesta numa assonância, numa contagem de sílabas, numa citação que dá força ao argumento, e por aí vai. A métrica poética, por exemplo, está em lugares que você nem imagina, desde aquele soneto bem interpretado que você para e pensa: “Nossa, como isso soa bem”, até em slogans de propaganda que utilizam de mil e um recursos para que você não consiga tirar mais eles da cabeça: “Coca-cola é isso aí”, ”Amo muito tudo isso!”, “Tá na moda. Tá na mão. Tá na C&A”, “Avon, a gente conversa. A gente se entende”. Sem falar dos pintores renascentistas, posicionando a luz bem onde querem, escolhendo os tons perfeitos, tudo meticulosamente pensado e arquitetado para transmitir o seu pensamento da forma mais clara e deslumbrante possível.  Temos inúmeros exemplos, é só pesquisar. E depois de tudo isso exposto você vêm me dizer que não há nada de exato nas ciências humanas?

            Quanto à galera das exatas, somos vistos como zumbis sem alma que vagam pelos cantos com o sangue repleto de café e falando numa língua estranha. Pois eu lhe digo caro amigo(a) (e quem já fez cálculo I concordará comigo), você pode decorar toda e qualquer fórmula, conceito, definição, teorema ou forma de integração, mas se você não se entender com o problema proposto, a conta não sai. Como diria um professor meu: “Integrar é uma arte!” De fato, você literalmente olha para a integral, entende, sente ela e de repente vem a intuição, o intento final daquele que calcula. Olhar para um caminho totalmente escuro, escutar a voz da alma e dizer: “Essa vai sair por trigonométrica / substituição / etc.” Ou como olhar para a torre Eiffel e pensar: “Ela é bonita porque não cai? Ou não cai porque é bonita?” E eu lhe digo: Ela não cai por causa da engenharia civil, e é bonita porque veio do fundo da alma humana, da expressão artística do arquiteto ou engenheiro.  E depois de expor o fato de que eu converso com integrais, pondo em risco a minha sanidade mental, você vêm me dizer que não há nada de humano em exatas? Então meu amigo, levante o seu queixo, pare de tentar ligar para o manicômio para me internar e reveja os seus conceitos ; )

            E agora que já viajei bastante na maionese vamos encerrar com um pouco de filosofia xintoísta, fazendo uma interpretação diferente do famigerado símbolo “yin-yang” , que não só representa duas forças opostas do universo, mas também mostra que ambas são necessárias. Se prestarmos atenção no lado escuro (peixe preto) da figura, temos latente nele um círculo branco, o mesmo ocorre com o “peixe branco” onde se percebe um círculo negro. Opostos, e mesmo assim interagindo de maneira harmônica na mesma figura. É aquele mesmo pensamento que já vi em outros lugares, talvez num para-choque de caminhão, em algum filme, não sei, “Um é tudo, e tudo é um”, e quando tratamos de criações humanas, da ciência que surgiu da observação e do intento de transformar o mundo em um lugar mais confortável e/ou compreensível poderemos enxergar essas ciências como coisas belas, necessárias e porque não, compatíveis.

 

Esse artigo é uma colaboração de Pedro Borges.