Acredito que quando se fala em “Coraline”, a maioria aqui está mais familiarizado com o longa de animação de 2009, escrito e dirigido por Henry Selick, ou até mesmo com o romance homônimo no qual a obra foi baseada, de Neil Gaiman, certo? Muito bem, numa ida à livraria com um amigo, encontrei essa HQ, e acabei ganhando de presente!  Eu, que já havia adorado o filme (e apesar de não ter lido – ainda!- o livro), decidi expor aqui alguns pontos que me fizeram gostar ainda mais dos quadrinhos do que da animação em si. Pessoalmente, já vou avisando que sou  ~padawan nesse universo, e estou lendo minhas primeiras obras nesse tipo de mídia, portanto, se eu soltar alguma coisa que soe estranha, podem me corrigir ali nos comentários, ok?

A HQ foi lançada nos Estados Unidos no final de 2007 pela HarperCollins, adaptada em textos e ilustrações por P. Craig Russel, e traz o mesmo plot do longa:   “ Coraline e seus pais mudam-se para uma antiga casa, com vizinhos velhinhos excêntricos e amáveis que não conseguem dizer seu nome do jeito certo, mas que encorajam a curiosidade e o instinto de exploração da menina. Numa tarde chuvosa e tediosa, Coraline consegue abrir uma porta que sempre estivera trancada na sala de visitas de casa e que revela (apenas para ela) um caminho para um misterioso apartamento ‘vazio’ no quarto andar do velho casarão. Para sua surpresa, o apartamento não tem nada de desabitado, e ela fica cara a cara com duas criaturas que afirmam ser seus “outros” pais. O mundo atrás da porta é mágico e sedutor. Lá, há brinquedos incríveis e vizinhos que nunca falam seu nome errado, além de “pais” muito atenciosos e uma comida maravilhosa. Porém, Coraline percebe aos poucos que aquele mundo é tão mortal quanto encantador, e que terá de usar toda a sua inteligência se quiser sair de lá.”  

O primeiro ponto que percebemos ao abrir as primeiras páginas é uma linguagem literária muito forte no texto/diálogos, provavelmente fazendo referência direta ao romance original de Neil Gaiman. A utilização dessa linguagem mais literária nas falas e diálogos certamente agrada aos fãs do autor e, particularmente, não afetou meu fluxo de leitura.

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A personagem principal é muito do que todos éramos aos 11 anos: essencialmente crianças, mas já carregados com uma responsabilidade de compreensão do mundo ao nosso redor. Ela sente-se deixada de lado pelos pais, que trabalham muito duro em casa todos os dias, e assume uma postura defensiva em relação a eles, quando exigem que ela seja mais independente. Quando se depara com a possibilidade de ter todos seus desejos infantis realizados com seus peculiares “outros pais”, ela chega no principal impasse: precisa ter um botão costurado em cada um de seus olhos, para continuar permanentemente naquele universo.

Aqui apresento o personagem que faz toda a diferença na HQ: O Gato. É o gato que traz todo o senso de realidade no terror da história, conseguindo transitar entre as duas dimensões, e é ele que, de maneira enigmática e clichê dos felinos, instiga Coraline a usar sua inteligência para descobrir por si mesma o que a “outra mãe” realmente trama. Esse senso de terror é amplificado pelo realismo da arte, refletindo na ausência de personagens caricatos no “mundo real”, além da presença acinzentada da neblina em quase todo o material.

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Entro agora num ponto de divergência de (algumas) resenhas que vi sobre o material: o fato de Coraline ser desenhada mais como uma adolescente do que como uma criança. Além do ponto de vista biológico, onde vemos algumas meninas de 11 anos desenvolverem-se mais rápido naturalmente, a personagem precisa crescer. É o que mais diferencia a HQ do longa de animação, a aura decididamente mais madura da obra. Coraline retrata essa fase de transição forçada, e as reflexões e atitudes da personagem no desfecho da história refletem isso.

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Muito mais do que um universo azulado em stop-motion pensado para um público livre de censuras (que por sinal respeita a trama infantil do romance original e tem grande valor em sua categoria), esta HQ apresenta um viés muito mais sombrio e eletrizante, exigindo um nível de maturidade um pouquinho maior de quem a consome, mas ainda sem perder a deliciosa aura de inocência que a obra carrega. No Brasil, é editada pela Rocco, em edição capa dura com 192 páginas. Quem quiser conhecer mais da obra, pode conferir um preview até a página 38 no site da própria HarperCollins (em inglês).

 

Esse artigo é uma colaboração de Blooh.