Há muito eu vinha me dizendo “um dia vou ler 50 tons de cinza para saber o que é que causa tanto furor”. Esse dia chegou inesperadamente, num momento em que meu notebook estava mostrando um combo de telas azuis e eu estava furiosa.

Logo adianto que sou curiosa e que não consigo começar algo, por pior que possa ser, e não terminar. Especialmente se quero saber como termina. Daí você já imagina que eu não apreciei a leitura. E acertou! E li toda a trilogia mesmo achando o primeiro livro terrivelmente mal escrito. “Então”, você me pergunta, “por que você leu tudo se podia ter parado na primeira página?” Porque, como diz Christian Grey, eu posso!

Piadinhas a parte, vamos ao que interessa. A partir daqui terão muitos spoilers, apenas avisando.

Cinquenta-Tons-de-CinzaComo a maioria das pessoas do planeta já deve estar ciente, a trilogia gira em torno da “complexa” relação amorosa entre o cara-lindo-sexy-misterioso-podre-de-rico-e-solteiro Christian Grey e a garota-sem-sal-linda-porém-comum-pobre-e-incrivelmente-desastrada Anastasia Steele. Essa é uma fórmula batida e super recorrente em chick lits e filmes de comédia romântica, inclusive na obra que inspirou E. L . James, a saga Crepúsculo. Mas é claro que algumas nuances foram alteradas.

Christian não é vampiro e não brilha no sol. É autoritário e controlador, e , além disso, vive secretamente o seu lado “sadomasoquista”. É problemático e cheio de mimimi, apesar de estar em uma família que o ama (pais e irmãos adotivos, como o Edward) e ser bem sucedido economicamente falando. Com apenas 28 anos, é dono de um império que construiu sozinho, mesmo tendo largado a universidade – um verdadeiro empreendedor! – e tendo problemas para se relacionar socialmente.

Não quero fazer pouco do problema dele. Não deve ser fácil ter visto a mãe, prostituta e viciada em drogas, morrer de overdose e ficar alguns dias trancado com o seu cadáver quando tinha por volta de uns 3 anos. Sem contar que ainda era torturado pelo cafetão da mãe – o que o faz impedir que outras pessoas o toquem onde ele sofria os abusos.  Tudo isso e a fúria adolescente quase o desencaminharam, até que, por volta dos 15 anos, ele encontrou uma dominadora, a Mrs. Robinson, que o iniciou nesse universo que foi propagandeado como sadomasoquista. Os reais adeptos criticaram muito essa versão da prática na obra e, apesar de eu ser noob, eu acredito que eles tenham razão. Christian passou a acreditar que Mrs. Robinson o salvara da vibe autodestrutiva em que ele estava e por isso meio que a venera, embora hoje sejam apenas amigos.

Download-Cinquenta-Tons-Mais-EscurosDepois dela, ele já teve outras 14 submissas (considero ela a primeira das 15, porque ele disse para Ana que ela não era dominadora 24/7), todas de cabelos castanhos, olhos claros, pele branquinha – padrão mãe biológica de Christian. Todas tiveram de assinar contratos de sigilo e submissão, tipo os termos de responsabilidade/uso que a gente aceita sem ler – só que ele obriga a pessoa a fazê-lo – afinal, ele é um cara muito conhecido e não quer que seu lado obscuro venha à tona. Entre os termos estão: lista de acessórios a serem usados, personal trainer, alimentação saudável, final de semana de orgias no quarto vermelho, posições possíveis e outras exigências que incluem o item: não toque no Senhor Grey.

Anastasia, que faz questão que todo mundo a chame de Ana, é uma ótima aluna que está prestes  a se formar. Trabalha meio período há 4 anos numa loja de ferragem, embora queira trabalhar numa editora em breve. Ela divide o apartamento com sua melhor amiga, Kate, que quer ser uma jornalista de sucesso. Ana perdeu o pai biológico antes mesmo de ter nascido e foi criada pelo primeiro padastro, Ray Steele – a ligação entre eles é tão forte que, quando sua mãe se casa pela segunda vez, Ana opta por ficar com Ray. Atualmente, sua mãe, Carla, está no terceiro casamento e está mais feliz com Bob do que com o segundo marido, que permanece um mistério no enredo.

Ana é tão desastrada que não sei como ela ainda está viva (embora o desastre maior seja quando ela responde Christian à altura e ele fica “para não viver”), mas graças à vergonha de ter se estatelado no chão na primeira vez que encontrou com Christian, ela conseguiu despertar seu interesse, uma vez que acreditou que as bochechas coradas todo instante e o pouco contato visual fossem sinais claros de sua submissão. Já disse que ela é o padrão de beleza “mamãe do Chris”? Pois é! O passado de Ana não é nada comparado ao de Christian, mas o presente pode se equiparar.

Download-Cinquenta-Tons-de-Liberdade-Trilogia-CinquentaEla não é apenas inexperiente na submissão, ela nunca namorou e nunca transou, e isso choca muito o “boy magia”, que a inicia no mundo do sexo – mas do amor não, porque ele não faz amor, ele “fode com força”. Mas isso de não namorar, não querer que o toquem só pode ser medo de se entregar, de perder o controle de si mesmo, de depender emocionalmente de outra pessoa. Mas o maior problema dele é ser “dominador” em todas as situações, e não só durante o sexo. Todo o tempo ele quer tirar a autonomia de Ana, seja dando um carro do modelo mais seguro, seja querendo empregá-la na sua empresa, afastá-la de seu melhor amigo, ou ainda COMPRANDO A EMPRESA EM QUE ANA COMEÇA A TRABALHAR. Isso sem falar na monitoração de quase todos os passos dela.

Ana sempre quer mais. Ele sempre afirma que não pode dar mais, que só quer que ela seja sua submissa, MAS age ROMANTICAMENTE com ela boa parte do tempo – conhecendo os pais dela e apresentando a família dele a ela, inclusive. Desde o começo ele já estava dando “o mais” para ela, mas precisou de centenas de páginas para assumir isso.

Ela funciona para Christian como uma terapia na prática, indo nas feridas, fazendo ele se abrir, ir superando aos poucos suas barreiras. O final é o da família de comercial de margarina, mas é realmente uma pena que a escrita de E. L. James seja tão pobre e tão repetitiva. Os diálogos são tão fracos e inacreditáveis que me renderam boas risadas – que morreram na metade do primeiro livro, porque a graça acaba. Muitas cenas de ostentação da fortuna Grey me deprimiram porque eu também queria ter um helicóptero para chamar de meu, além de um apartamento caríssimo, iate, jatinho, carros, segurança particular e até mesmo um ex-agente do FBI trabalhando para mim.

A autora, E. L. James

A autora, E. L. James

E por falar em investigação, Christian é muito paranóico, ele é o mestre jedi dos stalkers e isso é assustador! Outra coisa assustadora é sua possessão por Ana. Eu que me achava ciumenta e possessiva me assustei tanto que estou me analisando para me tornar uma pessoa melhor (10 pontos para grifinória 50 tons, e únicos também).

Ainda não compreendo por que a mulherada pirou nessa série. Por mais que Christian se “redima” e se case com Ana e tenha filhos com ela, e que Ana se torne uma depravadinha na cama, equilibrando bem essa balança e aceite ser rica sem ter mérito algum nisso, nada de bom sai dessa leitura. Digo isso pois me parece que as leitoras queriam estar no lugar de Ana, dando a bunda para bater porque idolatram Christian  Grey. Gente, apenas parem. Ele é doente. Eu tive mais repulsa pelo casal do que qualquer outra coisa. O mandão e a chorona, credo!

Ah, e as cenas de sexo não são boas. Cansei de ler na terceira tirada da camisa dele por cima da cabeça e de Ana estar sempre pronta para o orgasmo instantâneo. As melhores cenas para mim foram na sequência em que o ex chefe de Ana sequestra a irmã de Grey, Mia, e Ana tem que pagar o resgate sozinha.  Foi a primeira e única vez que me empolguei na leitura e que Ana finalmente tomou uma atitude – até Bella Swan era mais firme que Ana, embora o dramalhão se ambas seja equiparável.

No frigir dos ovos, essa trilogia está entre os piores livros que já li na vida. Fraco e inconsistente, Cinquenta Tons é indigno do sucesso que fez/faz e permanece um mistério para mim. Da leitura não aproveitei nada, a não ser a reflexão sobre ciúme e possessividade proporcionada pelo maluco do Grey.

Se você vive uma relação abusiva, não espelhe seu relacionamento em Grey e Ana, pois a vida não acontece como na ficção. Procure ajuda.