Como lançamento da Nerd Books em 2012, a coletânea de contos de terror do Fábio Yabu chamou bastante atenção por fazer, num momento oportuno em que várias releituras de contos de fada estavam sendo lançadas em várias mídias, sua versão mais carregada daquelas histórias que a gente ouvia quando criança. O sucesso parece ter sido grande, pois um ano depois a coletânea foi relançanda pela Globo Livros, com o adicional de dois novos contos.fabio yabu

Muito do teor dos contos de fadas foram alterados ao longo do tempo, como já foi discutido no episódio piloto do antigo Rádio Cult Cast, e muito do que conhecemos hoje em dia é a versão que a Disney nos mostrou desde Branca de Neve e os Sete Anões. Abu Fobiya, anagrama do nome do autor, não foi o primeiro e nem será o último a acentuar o terror nessas histórias. Originalmente, esses contos eram meio de alerta para crianças mais desobedientes e traziam mensagens bem diferentes daquelas do imaginário atual.

Os irmãos Grimm são referência no ocidente por terem transcrito essa tradição oral, e através de suas histórias popularizarem os mitos tradicionais de várias regiões. Outros autores ajudaram a consolidar os contos de fadas modernos, como por exemplo Charles Perrault.

Como foi dito antes, essa não é a primeira vez que os contos de terror se tornam macabros, alguns filmes já exploraram isso como Floresta Negra (1997), em a madastra manda o irmão de Branca assassiná-la e os sete anões na verdade são sete marginais, entre outras tantas versões que devo desconhecer.

O livro de Abu Fobiya que eu li foi da edição da Globo. Ele é composto por 12 contos, que tem seus altos e baixos, dos quais farei breves comentários para não estragar a experiência de leitura de ninguém. No geral, posso dizer que os contos são bem escritos, trouxeram agradáveis surpresas e o melhor de tudo: estão todos conectados, apesar de serem independentes.

branca dos mortos 7 zumbis

Como era de se esperar, o conto de abertura é Branca dos mortos e os sete zumbis, onde o leitor é apresentado a uma floresta sombria e cheia de mistérios e que aparecerá em outros contos. Aqui conhecemos o passado da mãe de Branca, uma linda e infértil rainha que recorre aos mais obscuros meios para conseguir realizar o sonho de ser mãe. A trama segue um pouco daquilo que já conhecemos: a inveja da madrasta, o desejo cego pela beleza e uma jovem indefesa morando na floresta. Claro que adicionando zumbis, que pelo título nem preciso falar mais nada, a história fica mais sangrenta. Em seguida temos João, Maria e os Outros, conto que mostra muito pouco dos irmãos que dão título à história e conhecemos profundamente o tormento de seus pais. Aqui temos muito mais um terror psicológico e menos sangue que no conto anterior, mas que começa a dar gás na leitura. Em Os três lobinhos não temos o tom amendrontador, pois acompanhamos os acontecimentos que envolvem três jovens lobos e sua cruel fome. É notória a melhora narrativa, embora essa seja uma das menores, mas que provoca uma boa reflexão sobre a relação entre lobinhos e homens. Retomando um dos contos mais tristes que já li na vida, em A vendedora de fósforos e o vingador, Abu retoma a figura do pai malvado que recebe a punição devida pelos seu más atitudes. Cindehella e o sapatinho infernal é definitivamente o conto mais sangrento de todos, o que é bom para quem curte um gore. Comecei a leitura deste com muita expectativa, o que pode ter contribuido para a minha decepção com a narrativa. Imagine uma mistura de Cinderela com Carrie,  é bem por aí o caminho que o conto segue. Gostei da mudança no toque da magia, mas para mim foi um dos menos atraentes, apensar do baile ter sido um show a parte. A confissão é um conto rápido e deixou a impressão de que poderia ter sido melhor desenvolvido, pois é um pouco confuso. Aqui temos novamente a relação entre pai e filho, em que esse recorre a atos terríveis para chamar atenção do pai. Bela Incorrupta faz um diálogo com Frankenstein, de Mary Shelley. O belo cadáver de uma jovem é alvo de experiências de um estudante de medicina que tenta descobrir os mistérios por trás da excelente conservação do corpo. O monstro é diferente por ser um poema, destoou do conjunto e confesso que foi o que menos gostei. O cemitério é o mais etéreo, por assim dizer. Narrando um diálogo entre dois fantasmas, vários personagens anteriores são revisitados sob uma nova perspectiva. Chegamos a Samarapunzel, a estrela do livro. Apesar de Branca de Neve ter um apelo mais comercial – tanto que nomeia a obra – Samarapunzel é de longe o melhor conto da coletânea. Aqui é onde todos os contos se interligam numa metanarrativa realmente surpreendente. Assim como em O Chamado, a história de Samara precisa ser transmitida ou a última pessoa a ouvi-la morre. Vale totalmente a leitura e por isso não vou comentar mais nada porque há grandes chances que eu solte um spoiler. O fim de quase todas as coisas me pareceu um pouco deslocado do conjunto, apesar de dialogar muito bem com seus antecessores, mas  definitivamente perdeu o ritmo por ter vindo depois de Samarapunzel. Por fim, O livro da dor encerra a coletânea mostrando os demônios Lamashtu e Vassago, que apreciava causar e colecionar a dor nos humanos. Assim como em O Cemitério, temos uma perspectiva diferente de alguns personagens conhecidos anteriormente, sem grandes revelações.

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No geral, Branca dos mortos e os sete zumbis e outros contos macabros vale sim a leitura. Como em todas as coletâneas que já li, tem seus contos altos e baixos, mas o saldo final foi positivo. Os contos mais sangrentos não me incomodaram, mas pode ser que afete os leitores mais sensíveis, então fica o alerta! Eu gostaria muito que Samarapunzel fosse ampliado, não só a personagem como o próprio universo criado pelo autor, que trouxe coisas novas e que conseguiram me surpreender.