Eu imagino que todos já conheçamos os gêneros mais comuns de mangás, certo? Quando eu falo de Shounens todos pensamos nas mesmas coisas, bom, quase, mas pelo menos em coisas muito parecidas, ambos pensamos em uma meia dúzia de mangás que muito provavelmente foram publicados na Shounen Jump.

Nanatsu no Taizai é irrevogavelmente um Shounen, em todos os sentidos do termo. E no que ele incorpora absolutamente todos os elementos indispensáveis para o gênero, a trama é executada de maneiras que subvertem a sua expectativa de formas bem interessantes. Apesar de não fazer nada particularmente novo, o mangá faz tudo que precisa ser feito de forma espetacular.

A tramaNanatsu no Taizai - Capa - Volume 1

Seguimos Elizabeth, princesa do Reino de Brittania, que busca os 7 Pecados Capitais, um grupo de bandidos, antigos cavaleiros do reino que caíram em desgraça ao tentar usurpar o trono – teoricamente, eles são a única força capaz de impedir os Cavaleiros Divinos que…hum…usurparam o trono… pois é.

Meliodas, o…herói?

O anti-herói não é um conceito novo, aliás ele já deve ter entrado e saído de moda algumas vezes só na última década, mas não quer dizer que não possa ainda ser algo interessante, se bem feito, e aliás, como precisa ser bem feito! O anti-herói geralmente parece um de dois arquétipos: o angustiado, tão atormentado pelo seu passado que não encontra mais felicidade em viver – ou o despreocupado com a vida e com o mundo, geralmente beirando a insanidade. Meliodas se encontra confortavelmente entre ambos e, sinceramente, se desenvolve muito pouco ao longo da estória.

Verdade seja dita, quanto mais aprendi sobre o passado dele, menos senti necessidade que o personagem Meliodas fosse desenvolvido. Ficou cada vez mais perceptível que ele já viveu o que tinha que viver, e já fez o que tinha que fazer, ele está apenas no centro da estória que está sendo contada.

O que desenvolver então?

A estória é interessante por si só, conhecer o mundo, a cultura, os limites das habilidades individuais de cada personagem, aliás, são tantos personagens! Tal qual tantos outros mangás antes dele, Nanatsu no Taizai nos oferece uma miríade de rostos e personalidades diferentes, tornados possíveis pela alta qualidade artística e narrativa do autor. Já nos primeiros capítulos vemos uma qualidade e coesão artísticas que só costumam bem mais tarde na vida de uma serialização.

O elenco traz personagens para todos os gostos, cada um com suas qualidades e multitudes de fatores que fazem uma personalidade completa e interessante. Mesmo entre os antagonistas vemos uma profundidade em suas ações, são pessoas com suas próprias motivações, próprias histórias, muitas das quais nós felizmente temos a oportunidade de conhecer.

A evolução de cada uma dessas personagens é muito mais importante do que uma trama superior ou um objetivo divino que vemos em tantas séries, a trama é efetivamente carregada pelas personagens e pelas escolhas que elas fazem a cada momento.

Nanatsu no Taizai - Boob gropeO Ruim

OK, então não é tudo uma mar de rosas. O mangá tem lá seus problemas. Em especial o apelo ao fan-service é algo que ele faz em demasia, e até hoje ocorre em situações absolutamente desnecessárias. Eu entendo, sexualidade vende, mas a forma como o mangá a faz é muito inoportuna, e praticamente sem propósito. Sexualidade em si não é um problema, mas ela precisa ser bem escrita, precisa fazer sentido. O constante assédio do Meliodas é contextualizado com uma desculpa estupidamente fraca, que sequer retira a noção de que ele é simplesmente um tarado.

O mangá também faz uso de alguns clichês que realmente já deveria ter morrido. Basicamente assim que acaba a primeira parte da trama é retirado do túmulo o bom e velho Nível de Poder numérico, que mais deveria ter ficado enterrado.

Talvez mais incômodo que qualquer outra coisa seja a simplicidade com a qual nós temos que aceitar certas partes da estória. Poderes que são tão únicos quanto se esperaria de uma estória tentando chamar atenção de crianças querendo escolher o poder mais legal pra si mesmas, se manifestam muitas vezes sem explicação. É simples assim, o personagem consegue fazer isso e pronto. O que deixa um gosto ruim na boca após algumas cenas específicas que eu não vou citar para não dar o spoiler.

ConclusãoNanatsu no Taizai - Cartazes de procurados

Fica claro que eu gostei muito deste mangá, acredito ser um dos melhores da sua geração e o vejo chegando tão longe quanto qualquer um dos grandes mangás que ainda estão em circulação. O autor criou um mundo infinitamente expansível, o que pode se provar um problema para ele se não souber como trabalhá-lo.

Posso dizer apenas que até agora não falhou em providenciar uma estória bem cadenciada e cheia de surpresas, um mundo espetacular, repleto de personagens cativantes, e de forma geral uma obra que dá um verdadeiro gosto de ler nessa época que vivemos de quase industrialização de uma meia dúzia de conceitos no universo de mangás. Nanatsu no Taizai se distingue como um dos bons, que assim como aqueles nos quais se inspira, será lembrado por muito tempo.

Ficha técnica

Título: Nanatsu no Taizai (Seven Deadly Sins)
Autor: SUZUKI Nakaba
Volumes: 17 (Em Publicação)