Grotescas (Gurotesuku), de Natsuo Kirino, é daqueles romances que te prendem logo de cara. Não somente pela trama interessantíssima de mistério policial em si e dos costumes de uma sociedade oriental tão complexa, mas principalmente pelo carisma e peculiaridades dos personagens principais: todos eles são, sem exceção, pessoas más.

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Capa japonesa do livro

O livro retrata as memórias e vidas de duas prostitutas assassinadas em condições semelhantes, ambas ex-estudantes da Escola Sistema Q para moças, instituição de ensino de elite em Tokyo, narrado principalmente em primeira pessoa pela irmã anônima de uma delas.

As três personagens são extremamente diferentes, unidas por duas características em comum: são extremamente ambiciosas e essencialmente malvadas. Yuriko, segundo sua irmã mais velha, é um monstro: absolutamente linda e perfeita. Ela tem plena consciência disso, e ofusca desde pequena a irmã feia e comum, mas que se julga inteligente e desde cedo preocupa-se em conseguir bolsa em um bom colégio de elite para ter uma vida boa e independente no futuro, numa tentativa de se sentir superior à irmã. Porém, logo ela descobre como é difícil manter-se numa sociedade de castas quando ingressa na Escola Q, sem ser rica, bonita, excepcionalmente brilhante ou filha de pessoas influentes. É nesse momento que conhece Kazue, uma garota muito magra e desengonçada, dotada de uma incrível autoconfiança e ideais ambiciosos, deturpados pela presença de um pai egoísta.

O crime em si e as vidas dessas pessoas são descritos pela irmã, com um senso de justiça bastante tendencioso. Justo quando começamos a duvidar seriamente do que ela fala, somos surpreendidos com capítulos narrados pela Yuriko (em seu diário) e Kazue, além da transcrição do depoimento de Zhang Zhe-zhong, o acusado por ser responsável pelos assassinatos. Somos expostos assim a diferentes pontos de vista dessas pessoas envolvidas, compreendendo ainda mais seus desvios de caráter e sensações de realidade, sendo muitas vezes extremamente angustiante ver através de seus pontos de vista.

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Natsuo Kirino

O depoimento de Zhang em específico requer um pouco mais de estômago do leitor. É um dos motivos principais de eu ter ficado em dúvida se tinha gostado ou detestado o romance, exatamente por entrar na mente desse personagem extremamente desagradável e controverso. Enquanto a irmã, Yuriko e Kazue são malvadas, porém fascinantes em seus psicológicos deturpados e malvados, Zhang pura e simplesmente eleva as qualidades de maldade e egoísmo ao extremo.

No final das contas, deve-se entender que Grotescas traz uma enorme caricatura deste cenário criminoso e também apresenta aos leitores ocidentais determinadas normas, costumes e tabus japoneses que contribuem ainda mais para o clima pesado da trama. O final é chocante, e cada vez que pensamos sobre a história, acabamos nos surpreendendo ainda mais sobre como a autora nos traz elementos tão fortes, numa enxurrada de sentimentos de amor e ódio aos personagens.

Natsuo Kirino é já consagrada no meio de literatura japonesa, tendo lançado mais de 18 livros, com romances de peso editados e premiados no ocidente. Grotescas foi inspirado em um caso real de assassinato, o Office Lady Murder (também conhecido como o Assassinato de Yasuko Watanabe).

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Grotescas
Autora: Natsuo Kirino
Tradução: Alexandre d’Elia
Editora Rocco
576 páginas.

 

 

 

 

Referências: Grotesque: Natsuo Kirino’s Dark World http://www.laweekly.com/2007-07-05/art- … k-world/1/

 

Esse artigo é uma colaboração de Blooh.