No começo dos anos 2000, a Capcom estava começando a ter uma crise originada pela estagnação. De lá para cá, a situação piorou bastante, porém ao menos na época, ela tinha algumas franquias que ainda estavam na “crista da onda” como Resident Evil e Devil may Cry. Outras séries de jogos estavam sofrendo, como o Street Fighter na sua impopular terceira edição e Megaman, que só estava fazendo bonito nos portáteis. Uma empresa grande como a Capcom precisava de novas ideias de peso para não decair no nível que ela está hoje. Analisando o contexto da época, até Devil May Cry era uma ideia descartada de Resident Evil 4, então, espontaneamente, não estava surgindo novas franquias. Bom, pelo menos houve uma tentativa de trazer novidades com a Clover Studios, que na minha humilde opinião, foi a melhor coisa que a empresa fez em toda sua história e infelizmente durou pouco.

God Hand

O que foi o Clover Studios?

Era um estúdio separado da Capcom com as maiores mentes que trabalham na empresa. Shinji Mikami (criador de Resident Evil) e Hideki Kamiya (designer do Devil May Cry) eram alguns dos figurões que estrelavam esse time dos sonhos.

Quais foram os jogos que eles produziram?

Adianto que esse time não conseguiu fazer nenhum jogo que não seja ao menos “bom pra caralho”. Alguns são obras primas. Vou citar as 3 franquias criadas por esse estúdio.

Viewtiful Joe

Esse foi o único sucesso comercial do estúdio. A primeira vista parece um jogo de pancadaria lateral como vários outros, mas além de trazer uma arte muito diferente e uma história bizarra, jogar ele era também uma experiência diferenciada. A protagonista do jogo tinha sido sugado para o mundo do cinema e lá ele poderia usar recursos da sétima arte para melhorar seus combates e resolver enigmas. Bastava acionar a câmera lenta para pode desviar de projetos ao estilo Matrix ou usar o foco para fazer combos devastadores. O sucesso foi tanto que o jogo ganhou uma sequencia na qual você poderia jogar também com a namorada do Joe que utiliza o poder o replay e até ganhou uma adaptação para anime (bem merda esse anime, mas não é algo assim que seria fácil de transportar e funcionar em outra mídia). Infelizmente nunca mais vimos Joe em um console de mesa e a Capcom esqueceu totalmente da franquia.

Okami

Um dos jogos mais belos do Playstation 2, a mecânica de jogo lembrava um pouco Zelda, pois você tinha que entrar em locais fechados para conseguir novas habilidade que ajudariam no progresso do jogo, mas diferente de Link, Amaterasu, a deusa loba protagonista de Okami, poderia utilizar o poder do pincel para mudar aquele mundo. Você poderia acionar o pincel, desenhar a copa em uma árvore seca e pronto, galhos cresceriam e ao poucos você sentia que fazia a diferença na recuperação daquele mundo. É um jogo lindo e a mecânica do uso pincel é muito inovadora. Sem dúvidas é um jogo indispensável para qualquer jogador, mas apenas não vendeu, apesar das críticas positivas. Teve uma sequência para o Nintendo DS, o Okamiden, que não foi feita pelo estúdio Clover, não teve envolvimento de líder do jogo original e foi recebido de forma mediada pela crítica.

God Hand

O último projeto da Clover Studios. Simplesmente um dos melhores beat n’ ups já feitos. O jogo contava a história de um cara esgaçaralho que tinha um braço mágico. Era possível ver nesse jogo que o estúdio estava dando seus últimos passos, pois os cenários são simplórios e a música tema se repete durante o jogo inteiro, mas nada disso consegue diminuir um gameplay sólido, no qual você poderia destravar novos golpes, editar novos combos e utilizar muito bem as diversas possibilidades de pancadaria que o jogo oferecia, principalmente porque a dificuldade era alta. O enredo tem vários momentos engraçados de rolar no chão, complementados por trechos de gameplay que você pegava inimigos e batia na bunda deles. Sim, era muitas vezes um humor “quarta série” mas não tinha como não rir.


E por que esse estúdio acabou?

Tirando Viewtiful Joe, todos os outros jogos do Clover Studios foram fracassos comerciais e os elogios da crítica não conseguiram fazer as vendas subirem. Para completar, houve uma treta entre Shinji Mikami e a Capcom com a quebra de exclusividade do Resident Evil 4, que saiu para tudo que é console, mas estava planejado apenas para o Game Cube. Não se sabe exatamente a razão do Mikami ter ficado bolado, mas parece que o setor comercial passou por cima do desenvolvimento, pediu para criar um jogo para uma plataforma só e depois que a exclusividade foi quebrada, o jogo não ficou tão bonito nas outras plataformas e gerou uma tremendo retrabalho para conseguir portar o Resident Evil 4 para outras plataformas. Assim que Mikami saiu, outros foram logo depois. O Clover Studios estava sem seus líderes e ainda dando prejuízo, então a Capcom não teve escolha a não ser fechar o estúdio.

Okami clover studios

E qual foi o legado do Clover Studios?

Apesar da ideia ter sido um fracasso comercial, muita gente percebeu que apenas bastava que os jogos fossem mais baratos e assim surgiram ideias posteriores como os jogos feitos na UbiArt. Talvez se as empresas tivessem investido mais em novas ideias, como o do Clover Studios, hoje não estariam perdendo tanto mercado para jogos independentes.
Sobre os membros do Clover Studios, muitos deles reuniram e fundaram a Platinum Games, entregaram jogos de sucesso como Bayonetta e Vanquish. Sem o capital gigantesco da Capcom, tiveram que arriscar menos, mas continuam entregando bons jogos.

Shinji Mikami saiu da Platinum Games e fundou o Tango Gameworks, entregando recentemente o The Evil Within, isto é, fazendo mais um jogo estilo Resident Evil no lugar de entregar coisas novas.

Conclusão

Hoje a Capcom sofre por apenas se apoiar em Street Fighter. Capaz dela quebrar se o próximo jogo da série dos lutadores de rua não ir bem nas vendas. Rebootar antigas ideias não agradou os fãs, como no caso do DMC, e o melhor seria ter criado novas franquias, pois mesmo com prejuízo, a longo prazo a empresa colheria os frutos.

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